Revirando alguns arquivos do meu computador, encontrei esse conto que escrevi em uma noite fria de julho de 2011. Umas das épocas em que eu me sentia mais desesperançada do que nunca. Aliás, o ano de 2011 no geral foi hard. É um saco ver que poucas coisas mudaram de lá pra cá... os mesmos medos e angústias. Lembro que não conseguia dormir nessa noite, então simplesmente sentei e escrevi, em poucos minutos, sem nem parar pra corrigir palavras ou pontuações, sem parágrafos. Só deixei aquilo sair de dentro de mim. Não sabia qual o fim que o conto teria, bem provavelmente seria algo trágico, mas meus pensamentos me levaram àquilo que eu sei que existe: a esperança de dias melhores! :)
O Quarto
Dentro
da imensidão de seu quarto vazio e gelado, ela grita, silenciosamente, por
socorro. Sozinha, perdida em seus pensamentos naquele cômodo enorme, onde três
camas antes ocupadas agora permanecem no mesmo lugar, imóveis, vazias, frias. É
como se, durante todos aqueles anos, a frieza e o vazio do quarto a tomassem
pra si, lhe dando essas mesmas características. Ela quer fugir daquele lugar,
fugir do monstro que a assusta, que quer destrui-la. Ela grita, grita e chora,
sem dizer nenhuma palavra. Em sua cabeça, as palavras giram descontroladamente,
bem como seus pensamentos, sem poder distinguir aquilo que sente. Se tivesse um
pouco mais de coragem e, talvez um pouco menos de lucidez, acabaria com tudo
aquilo, ali mesmo, no quarto vazio. Mas algo minúsculo dentro dela dizia que conseguiria
destruir o monstro, embora ele parecesse tão forte e imortal. Contudo, naquele
momento, nada parecia fazer sentido, toda a vida, anos em vão. Ela não queria
mais aquele sofrimento, aquele monstro a atormentá-la insistentemente, sem
deixá-la fazer o que queria, controlando-a e ameaçando-a. As lágrimas frias,
quase como pequenas gotículas de gelo, escorriam por seu rosto vermelho,
gelado, petrificado, soluçante. As mãos mortas buscavam ajuda no ar, como
querendo agarrar algo ou alguém invisível, um salvador que pudesse a tirar
daquele lugar, que pudesse ajudá-la a destruir o monstro. Mas não existia
ninguém com ela, somente seus soluços incessantes, suas mãos frias, seu
sofrimento e tristeza. O quarto vazio não dava respostas ou soluções, ficava
imóvel, sem esboçar expressão alguma ante o desespero dela. Os móveis
empoeirados, os livros pelo chão, os retratos mofados nas paredes, as
lembranças de uma vida que passou. Ela olha em volta, tenta encontrar um motivo
que a faça levantar, juntar forças e derrubar o monstro, acabar com ele,
matá-lo, ao invés de matar a si própria. Embora esta pareça ser a única
solução. O monstro mora dentro dela, rodopia junto com seus pensamentos
inquietos e indecifráveis. Acabar com ele significa acabar com tudo. Mas não,
ela não pode fazê-lo... ou, talvez, por que não? Suas pernas geladas se
arrastam lentamente pelo quarto, seus olhos se embaçam, não consegue enxergar
nada além de vultos de móveis. Seus pensamentos agitam-se ainda mais, como que
a saltar-lhe pela cabeça. As mãos estão roxas, dos olhos e do nariz escorrem um
líquido viscoso e infeliz. Seu choro mudo intensifica-se, seus pés arrastam-se.
Passa pelo corredor tão gelado quanto o quarto vazio, e tão vazio e empoeirado
quanto aquele. Lentamente, desce as longas escadas. Os pingos petrificados que
caem dos seus olhos parecem fazerem barulho de cristal ao contato com o chão.
Ela vê um bebê solitário no canto da escada, a chorar inquietamente, seu pranto
não é surdo como o dela, mas triste e profético. Ao enxergar-lhe, o bebê sorri
para ela com seus pequenos lábios vermelhos parecido com botões de rosas, como
que a dizer-lhe "Está tudo bem". Ela não cessa de chorar seu choro
sem voz, e continua lenta e obstinadamente seu caminho planejado. Ao descer mais um degrau congelado, avista
uma boneca no chão. Uma boneca horrenda, com um vestido amarelo e um pano
colorido na cabeça. Ao olhar para trás, uma menina com olhos redondos e negros
a encara com um ar tranquilo e feliz. A menina aponta para a boneca feia caída
no chão. Ela então agacha-se, já sem forças, mas ainda a chorar, e pega a
boneca pelos braços e contempla seu rosto feio e colorido. A menina continua a
encarar-lhe e estende o braço, a fim de ter de volta o brinquedo que perdeu.
Ela então, entrega-lhe a boneca feia. A menina lhe mostra um sorriso radiante,
seus pequenos dentes brancos a luzirem na escuridão das escadas. Com o
brinquedo nos braços, volta pro lugar de onde veio. Com seus pés frios, ela continua a caminhada
planejada, descendo degrau a degrau, sem questionar os acontecimentos que
presenciara até então. Seu pé gelado entra em contato com algo que não parece
ser aquela madeira fria. Como não enxerga muito bem, agacha-se, recolhe o que
está no chão e aproxima do rosto, quase a encostar nos olhos úmidos. É um papel
branco, um desenho feito à lápis. Quem será que teria desenhado, e o que estava
a fazer ali? Ela distingue três pessoas no desenho. Uma mulher, que parece
estar brava, está a gritar algo para um homem, do outro lado da folha. Este tem
o olhar triste e não menos zangado. No meio, uma criança chora, com seus braços
abertos como Cristo na cruz, sendo puxada por cada braço por uma daquelas
pessoas zangadas e confusas. Embora o desenho fosse bonito, ela não gostou. De
repente veio um calafrio por entre seu corpo dolorido. Largou a folha de papel
no chão e continuou seu caminho rumo ao fim da longa escada fria. Ela estava
quase que ao chegar ao final da escada de madeira quando encontra um obstáculo,
bate em algo. Enxuga os olhos tristonhos e vê uma menina já crescida, a
olhar-lhe com um ar assustado. A menina, toda vestida de preto parece não
compreender o que vê, mas esboça um sorriso confuso e segue seu caminho rumo a
algum lugar que nem ela mesmo sabe. Seu pranto diminuíra, suas mãos continuavam
frias e as escadas ainda tinham longos degraus a serem percorridos. Parecia que
estava descendo por uma eternidade aquelas escadas escuras, apoiada naquela
parede encardida e fria. Avista, enfim, o que parece o último degrau. Quase que
corta o pé, pois pisa em um espelho que está no chão. Ela levanta este e vê uma
imagem refletida. Mas o que ela enxerga do outro lado não é aquela pessoa de
rosto vermelho, olhos chorosos e infelizes, cabelo caído por entre os olhos
míopes. Ela vê uma linda mulher, com um sorriso radiante, seu ar como de dona
de si. Seus cabelos castanhos formam ondas no ar, e seus olhos negros
transmitem uma pureza e esperança que fazem com que ela, refletida do outro
lado do espelho, cesse de chorar e enxugue suas mãos geladas contra o rosto
vermelho. Larga o espelho no chão e despede-se da linda mulher. Chega, enfim,
ao final da escada de madeira. Passa por entre os escuros sofás encardidos e
chega à cozinha. Seus pensamentos parecem organizar-se e repousar num ritmo calmo.
Ela vê sua vida que passara, tudo parece fazer um pouco de sentido. Quando
percebe, está de frente à gaveta da cozinha, com uma enorme faca na mão. Ela
não compreende, olha para a faca que luze seu metal já sem fio e não entende
como foi parar aquilo nas suas mãos, tampouco o porquê descera aquela hora, já
era tarde, todos dormiam. Guardou a faca dentro da gaveta cheia de cupins e,
rapidamente, subiu novamente as escadas. Não encontrou mais nenhum espelho,
nenhuma menina, boneca ou desenho pelo chão. Subiu aquelas escadas geladas numa
velocidade que quase escorregara e caíra, não fosse estar segurando no corrimão
gelado. Entrou no quarto vazio, que não parecia mais tão gelado assim, embora a
temperatura ainda estivesse muito baixa. Deitou na sua cama, tapou-se com a
montanha de cobertores que estavam lá e dormiu um sono profundo e tranquilo.
Não sonhou com monstros, com o frio ou com a solidão do quarto vazio. Sonhou
com o tempo que ela tinha pela frente e a longa caminhada que ainda estava por
vir. Seus pensamentos organizaram-se e ela passou a ver que existia um sentido
apesar de todo aquele sofrimento, embora não soubesse explicá-lo. O monstro
desaparecera na imensidão de seus sonhos tranquilos. Pelo menos, por um tempo,
ele não mais viria atormentá-la.
Porto Alegre, 7 de julho de 2011 - 2:22
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